sobre rótulos

jurandir já está com seus quarenta e poucos anos, iniciando o bom combate com a crise de meia-idade, mas sobre algumas coisas na vida ele já tinha criado suas certezas: já havia internalizado que o feijão deve ser colocado por cima do arroz, e firmado a convicção de que leite com manga não mata. se nunca testou a tese, foi por falta de oportunidade. sobre outra coisa em específico, também tinha certeza. ele encontrou o rótulo, viu que fazia sentido e passou a usá-lo. mas só foi simples assim até o final da tarde de quinze de julho de dois mil e dezessete.

na época, ele estava interessado por uma mulher que conhecera por amigos em comum. se chamava luciana. em determinada conversa que tiveram, ela disse que adorava vinhos, e jurandir viu o esboço de um plano com cheiro de perfeição se formando em sua mente. passou a semana pesquisando destinos turísticos, vinícolas, passeios e hotéis. disse para luciana apenas para estar com as malas prontas para passar o final de semana fora, pois viajariam de carro para um lugar especial.

a esperada sexta-feira finalmente chegou. a viagem de carro durou cerca de duas horas. chegaram junto com o anoitecer, e puderam ver a cidade ganhando charme com as luzes das ruas que pareciam se acender para anunciar a chegada do casal. cansados, mas com energia suficiente para carregar as malas e conhecer bem a disposição, e resistência, de alguns móveis do quarto.

no dia seguinte, jurandir colocou seu plano em movimento. e logo cedo já iniciaram sua jornada de degustações pelas melhores vinícolas da cidade. quando chegaram à última, não aguentava mais ouvir o mesmo discurso dos enólogos. já sabia de cor todos os jargões. pensou até que poderia ser guia em um daqueles passeios. enquanto recebia mais uma taça, fazia o próprio discurso com sotaque francês caricato em sua cabeça, falando sobre a cor do vinho e como ele interagia com o vidro da taça. interrompeu a frase dramaticamente para levar o vinho à boca, enquanto buscava sua plateia, luciana, com olhar.

já bêbado, não percebeu que ao levantar a cabeça e entornar a taça, estava também deixando indefesa sua jugular ao destino. passara a tarde inteira andando de vinícola em vinícola, experimentando todos os tipos de sabores e cores, um mais esquecível do que o outro. a tarde inteira pensando se conseguiria encontrar sua cerveja favorita em algum lugar daquela cidade que fedia a uvas maduras.

mas agora ele estava falando com o guia e apontando para a maldita garrafa que acabara de provar, para logo em seguida ter sua taça preenchida por aquele líquido avermelhado. provou novamente. o arrepio que correu por sua espinha quando o sabor explodiu em sua boca só serviu para deixá-lo mais inquieto.

para o inferno com sua cerveja! agora era preciso convencer luciana de que deveriam comprar ao menos uma garrafa daquele vinho. de que ela queria uma garrafa de vinho. respirou fundo. será? não. ele já estava fora de si, o paladar completamente alterado. quando voltasse para casa, abriria a garrafa, e ao provar novamente daria risada de toda a situação. mas, para isso, precisava comprar uma garrafa.

conseguiu. não só uma. duas.

durante o jantar à luz de velas, não conseguia sequer prestar atenção nas frases sugestivas que vinham do rosto já ruborizado de luciana. de cinco em cinco minutos olhava para a sacola de papelão vermelho sobre a mesa, de onde as duas rolhas pareciam olhos a encará-lo discretamente.

chegando ao quarto, luciana num movimento suave, e quase teatral, abriu o zíper do vestido, que escorregou lentamente, acariciando suas pernas, até chegar aos tornozelos. tirou os saltos, se acomodou na cama e virou para olhar jurandir. enquanto todo esse espetáculo sensual transparecia, ele fazia movimentos frenéticos na busca por um saca-rolha nos armários.

três coisas aconteceram quase simultaneamente: o barulho da rolha escorregando da boca da garrafa, o sorriso se abrindo no rosto de jurandir, e a frase "nossa, mais vinho?!" vindo de luciana com um misto de susto e cansaço. "sim, você disse que adorava. pensei que quisesse mais... agora já abri.". serviu duas taças e levou até a cama. entregou uma para luciana, que só encostou o vinho nos lábios, colocou a taça na mesa de cabeceira e virou-se para ele.

e assim ficaram. ela, deitada em seu peito enquanto fazia carícias com a mão, ele, de olhos fechados brincando com a bebida em sua boca. foi um dia cansativo, e não demorou muito para ela começar a roncar. ele a empurrou com cuidado para o lado da cama, e levantou para encher sua taça novamente. no dia seguinte, quando o sol começou a entrar pela janela, jurandir acordou abraçado com a garrafa vazia.

fizeram as malas para voltar, e jurandir tomou o cuidado de colocar por engano a outra garrafa de vinho dentro da sua mala. luciana, que dizia adorar vinhos, sequer lembrava dela. almoçaram, deram mais um passeio pelo parque da cidade e pegaram a estrada de volta. jurandir deixou luciana em casa, se despediram com um beijo longo no carro, e ele seguiu seu rumo tratando os sinais vermelhos como meros adereços da via.

colocou a mala no chão da sala com cuidado e a abriu. pegou a garrafa com o mesmo carinho que se segura uma fruta delicada e a repousou sobre a mesa.

a garrafa amanheceu vazia. e permanece assim até hoje guardada num armário em sua cozinha. solitária. em meio a engradados de cerveja, sem nunca mais apreciar a companhia de suas iguais como na adega de onde saiu.

jurandir, hoje, recusa com uma careta, sincera, sempre que lhe oferecem um gole de vinho.